
🧠 ARTIGO | DA FRUSTRAÇÃO À FABRICAÇÃO DE INIMIGOS: COMO O RESSENTIMENTO ALIMENTA A EXTREMA-DIREITA
Uma análise sobre rigidez cognitiva, medo da mudança, ressentimento social, manipulação política e os mecanismos comportamentais que ameaçam a convivência democrática.
✍️ Por Ahlex Van der All | Cientista comportamental, estrategista de pessoas e inteligência empresarial
🔍 Por que algumas pessoas transformam suas frustrações em ódio contra outras?
Durante minha trajetória estudando comportamento humano, liderança, inteligência multidimensional e desenvolvimento profissional, uma questão tem chamado cada vez mais minha atenção.
Por que determinadas pessoas, diante das mudanças sociais, tecnológicas e culturais, respondem com curiosidade e aprendizagem, enquanto outras reagem com hostilidade, rejeição e necessidade de encontrar culpados?
E por que certos movimentos políticos, particularmente segmentos autoritários da extrema-direita, conseguem transformar esses sentimentos em identidade, militância e poder?
Minha hipótese é que parte dessa dinâmica pode ser compreendida por um ciclo comportamental que envolve dificuldades de adaptação, resistência a novos conhecimentos, ameaça percebida ao próprio status, frustração, atribuição externa de culpa e mobilização política do ressentimento.
Não considero esse ciclo uma explicação universal do conservadorismo, da direita ou mesmo de todas as adesões à extrema-direita. Trata-se de um modelo interpretativo para investigar um mecanismo específico de radicalização.
🧠 1. A primeira fase: quando a capacidade de executar não acompanha a necessidade de compreender
Imagine um profissional dedicado, trabalhador, pontual e experiente. Durante anos, suas habilidades foram suficientes para garantir reconhecimento, renda e estabilidade.
Ele sabe executar suas tarefas. Conhece sua rotina. Tem experiência prática.
Entretanto, o ambiente começa a mudar.
Novas tecnologias, competências, processos, relações sociais e formas de organização passam a exigir habilidades diferentes.
O que antes dependia principalmente de experiência operacional agora pode exigir aprendizagem contínua, análise crítica, pensamento sistêmico e capacidade de trabalhar com situações desconhecidas.
É importante compreender que ser um profissional operacional não significa possuir inteligência inferior. A execução exige conhecimentos próprios, raciocínio e competências frequentemente sofisticadas.
O problema surge quando qualquer pessoa, operacional ou executiva, passa a depender exclusivamente do repertório que já possui e deixa de desenvolver as competências necessárias para enfrentar novos contextos.
Nessa situação, aquilo que antes representava segurança pode começar a representar limitação.
E nem sempre a pessoa percebe essa transformação.
📚 2. A segunda fase: a resistência ao conhecimento novo
O segundo mecanismo envolve a maneira como reagimos às informações que desafiam nossas crenças.
Aprender não consiste apenas em receber informações. Muitas vezes, exige reconhecer que uma interpretação anterior estava incompleta ou equivocada.
Isso pode ser desconfortável.
A psicologia estuda fenômenos como a necessidade de fechamento cognitivo, o dogmatismo e a inflexibilidade cognitiva.
Esses conceitos ajudam a compreender por que algumas pessoas preferem explicações definitivas, previsíveis e familiares em vez de reconsiderar suas interpretações.
A pesquisadora Leor Zmigrod, da Universidade de Cambridge, com colaboradores, identificou associações entre inflexibilidade cognitiva e atitudes extremistas.
Isso não significa que exista um cérebro biologicamente destinado à extrema-direita, nem que toda pessoa com dificuldade de adaptação vá desenvolver posições autoritárias.
Significa que determinados estilos de processamento cognitivo podem funcionar como fatores de vulnerabilidade.
Quando mudar de opinião passa a ser vivido como ameaça à própria identidade, a pessoa pode começar a defender aquilo em que acredita mesmo diante de evidências contrárias.
A partir daí, conhecimento novo deixa de ser percebido como oportunidade e pode passar a ser interpretado como agressão.
⚖️ 3. A terceira fase: a comparação social e a ameaça de perder espaço
Aqui surge uma questão central.
O mundo continua mudando, independentemente de nossa disposição para acompanhá-lo.
Pessoas que anteriormente tinham menos acesso a determinados espaços podem conquistar novas oportunidades.
Mulheres ocupam posições de liderança. Pessoas negras ingressam nas universidades. Profissionais de diferentes origens alcançam cargos de prestígio. Pessoas LGBTQIA+ conquistam reconhecimento e direitos.
Esses processos podem ampliar o acesso e corrigir desigualdades históricas.
Mas, para alguém que compreende a sociedade como uma competição de posições fixas, a ampliação dos direitos de outras pessoas pode ser percebida como perda pessoal.
É uma confusão profundamente importante.
O crescimento de outra pessoa não significa necessariamente que alguém tenha sido prejudicado.
Entretanto, quando alguém acredita que determinado espaço lhe pertence por tradição, a entrada de novos participantes pode produzir uma sensação de ameaça.
A cientista política Diana Mutz mostrou, em um estudo sobre a eleição presidencial norte-americana de 2016, que ameaças percebidas à posição dominante de determinados grupos tiveram maior poder explicativo para mudanças de preferência eleitoral do que a deterioração financeira individual.
Estamos diante de um conceito fundamental: a ameaça ao status social.
Não é necessário perder alguma coisa objetivamente para experimentar a sensação de estar perdendo.
Às vezes, basta perceber que outras pessoas estão conquistando espaços antes considerados exclusivos.
🌡️ 4. A quarta fase: quando a frustração se transforma em ressentimento
A pessoa trabalha, tenta avançar e não consegue alcançar aquilo que deseja.
Pode perder uma promoção, enfrentar desemprego, perceber uma redução no poder de compra ou sentir que sua posição social está ameaçada.
As causas dessas dificuldades são múltiplas.
Podem envolver falta de qualificação, desigualdade de oportunidades, problemas econômicos, discriminação, mudanças tecnológicas, decisões empresariais ou circunstâncias que escapam ao controle individual.
Mas existe uma diferença entre investigar essas causas e desenvolver ressentimento.
Quando experiências sucessivas de frustração passam a ser interpretadas como humilhação, injustiça pessoal ou perda de reconhecimento, a raiva pode se intensificar.
O ressentimento transforma acontecimentos específicos em narrativas duradouras sobre quem somos e quem estaria nos prejudicando.
A pessoa já não pergunta apenas como melhorar sua situação.
Começa a perguntar quem deve ser responsabilizado por ela.
E é justamente nesse ponto que discursos extremistas podem encontrar terreno favorável.
⚠️ 5. A quinta fase: a fabricação de inimigos
Uma alternativa à frustração seria investigar o problema, aprender, procurar apoio, desenvolver competências e participar de soluções coletivas.
Mas existe outro caminho: encontrar alguém para responsabilizar.
Um candidato não consegue determinada vaga e conclui, sem investigar os critérios da seleção, que perdeu a oportunidade por causa de uma política de cotas.
Um profissional encontra dificuldades diante das mudanças culturais e começa a atribuir seus problemas à presença de pessoas LGBTQIA+.
Alguém insatisfeito com a própria condição passa a acreditar que imigrantes, mulheres, minorias ou beneficiários de programas sociais são responsáveis pelas dificuldades que enfrenta.
Essas interpretações não precisam corresponder à realidade para produzir consequências emocionais e políticas.
O mecanismo é conhecido, na psicologia social, como atribuição de culpa a um grupo externo ou construção de um bode expiatório.
A responsabilidade deixa de ser investigada e passa a ser direcionada a um inimigo conveniente.
Em vez de perguntar quais fatores explicam determinada dificuldade, a pessoa recebe uma resposta pronta: existe um grupo que estaria roubando seus direitos, seus empregos, seus recursos ou seu modo de vida.
Essa explicação oferece uma vantagem psicológica imediata.
Ela preserva a autoestima, organiza a raiva e fornece um alvo identificável.
Mas também produz um custo coletivo enorme.
Pessoas que poderiam colaborar passam a ser tratadas como adversárias.
A diversidade passa a ser interpretada como ameaça.
E direitos são apresentados como privilégios ilegítimos.
🏛️ 6. A sexta fase: quando a extrema-direita transforma ressentimento em poder
É aqui que minha hipótese encontra seu elemento politicamente mais preocupante.
O ressentimento, por si só, não produz necessariamente uma ideologia autoritária.
Ele precisa encontrar narrativas, lideranças, organizações e condições sociais capazes de transformá-lo em identidade coletiva.
Determinadas lideranças políticas percebem que sentimentos de ameaça, insegurança e indignação mobilizam pessoas.
Em vez de explicar a complexidade das transformações econômicas e sociais, podem oferecer interpretações simples, emocionalmente intensas e organizadas em torno de antagonismos.
A população passa a ser dividida entre aqueles que supostamente representam a ordem legítima e aqueles apresentados como responsáveis pela deterioração dessa ordem.
Dessa maneira, conflitos econômicos, culturais e políticos diferentes acabam reunidos sob uma mesma narrativa.
O trabalhador frustrado, o eleitor desconfiado das instituições, o indivíduo desconfortável com mudanças culturais e a pessoa que teme perder sua posição social podem encontrar uma identidade política compartilhada.
A hostilidade contra os grupos escolhidos como adversários passa a funcionar como elemento de união.
No Brasil, discursos de figuras públicas como Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato, Bia Kicis e Carla Zambelli podem ser analisados nesse contexto, sempre mediante o exame de declarações e ações verificáveis, sem presumir suas intenções pessoais ou estabelecer diagnósticos psicológicos.
Um exemplo documentado ocorreu em 8 de março de 2023, quando Nikolas Ferreira utilizou uma peruca durante discurso na Câmara dos Deputados e afirmou que mulheres estariam perdendo espaços para mulheres trans.
Esse episódio permite estudar uma construção retórica específica: a apresentação da conquista de reconhecimento por determinado grupo como ameaça aos direitos de outro.
O debate democrático permite divergências sobre políticas públicas. Mas a discordância se torna especialmente problemática quando transforma a própria existência ou dignidade de outras pessoas em objeto de hostilidade.
O que deve ser analisado é como determinadas mensagens produzem percepções de ameaça, a quem atribuem responsabilidade e que comportamentos procuram mobilizar.
👥 7. A liderança disfuncional e a economia da indignação
Existe ainda uma dimensão que considero essencial: o papel do poder.
Nas organizações, encontramos lideranças que utilizam insegurança, rivalidade e conflito para fortalecer sua própria posição.
Em vez de desenvolver autonomia, criam dependência.
Em vez de estimular pensamento crítico, exigem lealdade.
Em vez de resolver problemas, podem se beneficiar da permanência deles.
É possível estabelecer uma analogia entre esse padrão de liderança disfuncional e certas formas de mobilização política autoritária.
O líder apresenta um perigo permanente, define quem são os inimigos, promete proteção e reforça sua posição como representante indispensável do grupo.
A cada novo conflito, amplia-se a oportunidade de renovar a indignação e fortalecer vínculos identitários.
Essa dinâmica pode gerar benefícios políticos, visibilidade e oportunidades econômicas. Entretanto, identificar ganhos não é suficiente para demonstrar intenção deliberada de manipular: isso exige análise documental de comportamentos, estratégias e incentivos.
Nas redes sociais, o problema ganha outra dimensão.
A indignação pode gerar comentários, compartilhamentos, confrontos e atenção pública. O incentivo à visibilidade transforma conflitos em produtos de comunicação.
O risco é a construção de um círculo que se alimenta de si mesmo:
Ameaça percebida → ressentimento → identificação de inimigos → mobilização política → reforço da ameaça.
Quanto mais a pessoa consome mensagens que confirmam a existência de inimigos, menor pode ser sua disposição para examinar interpretações alternativas.
E quanto mais intensa se torna a identidade construída em torno dessa disputa, maior pode ser o custo emocional de reconsiderá-la.
🔬 8. O que as pesquisas realmente mostram?
Precisamos separar interpretação, hipótese e evidência.
Pesquisadores como Leor Zmigrod investigam relações entre cognição e extremismo.
John Jost e colaboradores estudam motivações psicológicas ligadas à preferência por ordem, segurança, hierarquia e estabilidade.
Diana Mutz investiga ameaças percebidas à posição social.
No Brasil, estudos sobre autoritarismo, dominância social e justificação do sistema ajudam a compreender como fatores psicológicos e históricos se relacionam às preferências políticas.
Hélène Landemore, por outro lado, oferece uma contribuição complementar: a importância da diversidade cognitiva, da participação e da inteligência coletiva para a qualidade das decisões democráticas.
Essas pesquisas ajudam a compreender partes do fenômeno. Não comprovam que todas as pessoas radicalizadas percorram a mesma sequência, tampouco permitem classificar a inteligência de indivíduos com base no voto.
A radicalização envolve fatores individuais, culturais, históricos, institucionais e tecnológicos.
Nossa responsabilidade é estudar essas interações sem substituir uma generalização política por outra.
🌱 9. Conhecimento, dignidade e responsabilidade
Há uma ideia sobre desenvolvimento humano que considero especialmente importante: muitas limitações podem ser superadas quando ampliamos nosso repertório de conhecimentos, habilidades e experiências.
O conhecimento pode transformar trajetórias.
Mas não basta afirmar que toda pessoa deixa de conquistar algo porque não sabe o suficiente.
Existem barreiras materiais, desigualdades, discriminação e circunstâncias que o conhecimento individual não resolve sozinho.
Por isso, uma sociedade comprometida com o desenvolvimento precisa combinar educação, justiça, oportunidades reais e responsabilidade.
O conhecimento ajuda a identificar possibilidades.
A reflexão crítica ajuda a escolher caminhos.
A convivência democrática permite aprender com experiências diferentes.
E a dignidade humana estabelece um limite que nenhuma disputa política deveria ultrapassar.
🕊️ Conclusão: o verdadeiro inimigo não é quem conquistou direitos
A sociedade não precisa permanecer prisioneira de uma guerra permanente entre seus próprios cidadãos.
Não precisamos transformar pessoas negras em inimigas de pessoas brancas, mulheres em adversárias de homens, pessoas LGBTQIA+ em ameaças às famílias ou trabalhadores em inimigos daqueles que recebem proteção social.
O caminho não pode ser a fabricação contínua de culpados.
É necessário desenvolver habilidades, ampliar oportunidades, fortalecer o pensamento crítico, responsabilizar efetivamente quem exerce o poder e criar condições para que as pessoas enfrentem suas dificuldades sem desumanizar outras.
A extrema-direita autoritária merece investigação e crítica quando explora medos sociais, incentiva a hostilidade contra minorias ou transforma diferenças em instrumentos de mobilização.
Mas combater esse mecanismo exige compreender suas causas, não desqualificar indiscriminadamente quem aderiu a determinadas narrativas.
Uma sociedade inteligente não é aquela em que todos pensam da mesma maneira. É aquela em que pessoas diferentes conseguem aprender, discordar e conviver sem transformar umas às outras em inimigas.
Se queremos reduzir o extremismo, precisamos diminuir as condições que tornam a hostilidade atraente e aumentar as condições que tornam o desenvolvimento, o diálogo e a cooperação possíveis.
Essa é uma tarefa de educação, ciência, liderança e democracia.
📖 FONTES E REFERÊNCIAS DE PESQUISA
🔹 01. Zmigrod, Rentfrow e Robbins (2019): Cognitive Inflexibility Predicts Extremist Attitudes
https://doi.org/10.3389/fpsyg.2019.00989
🔹 02. Zmigrod (2020): The Role of Cognitive Rigidity in Political Ideologies
https://doi.org/10.1016/j.cobeha.2019.10.016
🔹 03. Mutz (2018): Status Threat, Not Economic Hardship, Explains the 2016 Presidential Vote
https://doi.org/10.1073/pnas.1718155115
🔹 04. Souza e colaboradores (2025): Political Ideology as Historically Situated Motivated Social Cognition
https://doi.org/10.1111/josi.70048
🔹 05. Landemore (2013): Democratic Reason: Politics, Collective Intelligence, and the Rule of the Many
https://doi.org/10.23943/princeton/9780691155654.001.0001
🔹 06. Câmara dos Deputados: discurso de Nikolas Ferreira em 08/03/2023
https://www.camara.leg.br/internet/SitaqWeb/TextoHTML.asp?Data=08%2F03%2F2023&dtHoraQuarto=14%3A44&dtHorarioQuarto=14%3A44&etapa=5&nuDiscurso=1&nuInsercao=1&nuQuarto=2827616&nuSessao=17.2023&sgFaseSessao=BC&txApelido=Nikolas+Ferreira&txEtapa=&txFaseSessao=Breves+Comunica%C3%A7%C3%B5es&txTipoSessao=Ordin%C3%A1ria+-+CD
👤 SOBRE O AUTOR E CONTATOS
Ahlex Van der All
Diretor-Geral | Grupo AVDA / All Corporate
Cientista comportamental | Estrategista de Pessoas e Inteligência Empresarial
Autor de Gestão de Pessoas para Alta Performance – Os 8 Ciclos da Excelência
Criador do IMD 3.0 | Liderança, Cultura, People Intelligence e Desenvolvimento Humano
28 anos de experiência | 76.000+ profissionais treinados | 1.800+ empresas impactadas | 97 multinacionais no histórico de atuação
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